Quatro Cordis

30 de julho de 2018

ESCUTANDO AS BATIDAS DOS QUATRO CORAÇÕES

por Paulo César de Carvalho

Quatro cordis é um projeto conceitual escrito a quatro mãos, em quatro cores, com quatro discos e quatro livros, sobre “as quatro estações” do amor. Para começar a explicá-lo, recordemos que a palavra “coração” – nome do órgão icônico do amor – nasceu do latim cor, cordis. Aliás, “recordar” – cujo significado é “trazer ao cordis” – tem a mesma origem, remetendo à “memória afetiva” que nos liga indissoluvelmente aos amores inesquecíveis.

Se você pensou que já sabe tudo isso de cor, continua pensando com o coração: a expressão “saber de cor” quer dizer “saber de coração”. Se você discorda, pode pesquisar: “discordar” significa “pensar com os corações separados”. Melhor será, evidentemente, se você “concordar”, para podermos pensar “com os corações juntos”. Estamos, enfim, de acordo? Isso quer dizer, então, que já estamos pensando “com o mesmo coração”.

Haverá quem diga que isso não é bom, evocando a máxima de que “o coração turva a razão”. Podemos dar o troco na mesma moeda proverbial: “a chave dos tesouros é a chave do coração”. De quebra, jogamos outra: “as delícias do coração são mais tocantes que as do espírito”. E mais uma, já que aqui não tem miséria: “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Se disserem que estamos com “o coração na boca”, diremos que “a boca fala da abundância do coração”: afinal, amar é “cair de boca”, é “ficar de boca aberta”.

Se alguém “meter a boca”, metemos a língua – e soltamos os provérbios: “a língua fala pelo coração”; “a língua não mente o que o coração sente”. Podemos, enfim, suspirar: se você não sente, sentimos muito. É fácil dizer que “não se deve dar ouvidos ao coração”: difícil é não escutar quando o amor bate na porta com força e entra – ou quando bate forte a porta e parte. Um ouvido é a porta de entrada: “um coração contente é festim permanente”. O outro é a porta de saída: “coração magoado fala demasiado”.

Por isso, quando escutamos as batidas da palavra “amor” na aorta, não dá para “entrar por um ouvido e sair pelo outro”: “o coração salta pela boca”; a gente fica “de boca aberta”. Por isso a gente canta Coração Vagabundo com Caetano: Meu coração não se cansa/ de ter esperança/ de um dia ser tudo o que quer. Por isso a gente canta Por causa de você, Menina com Jorge Benjor: Por causa de você bate em meu peito/ baixinho, quase calado/ um coração apaixonado por você. Por isso a gente canta o Coração com Noel Rosa: Coração/ grande órgão propulsor/ distribuidor do sangue venoso e arterial/ Coração/ não és sentimental/ mas entretanto dizem/ que és o cofre da paixão.

Para que nenhum médico de plantão nos corrija, lembramos que Noel errou duas vezes: na primeira versão, escreveu “transformador do sangue venoso em arterial”; na segunda, “distribuidor de sangue venoso em arterial”. Os cardiologistas explicam que não é uma coisa nem outra: o coração bombeia o sangue arterial, que vem dos pulmões, para todo o corpo; e direciona o sangue venoso até os pulmões, que o oxigena. Noel era estudante de Medicina, abandonando o curso para abraçar o samba: a Medicina e a MPB agradecem!

Apesar da justificativa, os cardiologistas não curam males de amor: eles não sabem que, na verdade, temos quatro corações. Exatamente por esse motivo é que o nome deste projeto poético-musical é Quatro Cordis: para tanto amor, convenhamos que um só coração não poderia mesmo dar conta dessa tarefa hercúlea. Para explicar, enfim, apresentamos este “eletroacusticardiograma” para os ouvintes “auscultarem” as suas batidas. O primeiro disco-livro é vermelho: canta o “encanto”, o desejo de estabelecer o elo da paixão. O segundo é amarelo: canta o “encontro”, o elo formado. O terceiro é azul: canta a tristeza do “desencanto”, o elo desfeito. O quarto é verde: canta o “reencontro”, o restabelecimento do elo amoroso.

Brunêra, o nosso doutor da canção, deu-me a honra de compor com ele muitas das histórias que vocês ouvirão. Como se não bastasse, convidou-me para conceber com ele este projeto. Como se ainda não fosse suficiente, honrou-me com o convite para escrever esta abertura. Como diz o ditado, “contando as suas paixões, aliviam-se os corações”. Por isso, cantemos para louvar o amor, cantemos para espantar seus males.

Paulo César de Carvalho

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